Pastor de Rondônia vira réu por abusar de 12 mulheres; se aproveitava delas em momentos frágeis

PUBLICADO EM: outubro 18, 2026

O pastor e psicólogo Aluízio Vidal Flor, de 58 anos, virou réu por crimes sexuais em Porto Velho depois de ao menos 12 mulheres o denunciarem ao Ministério Público de Rondônia (MP-RO). Ao UOL, uma das vítimas contou como ele usava a confiança que tinham nele para cometer os abusos.

O que aconteceu

A Justiça aceitou a denúncia contra o pastor em 1º de outubro. Ele responde por estupro e por violação sexual mediante fraude, crime em que o agressor usa um engano para impedir que a vítima consinta de verdade.


A denúncia trata de crimes cometidos entre 2012 e 2025 contra quatro das 12 mulheres que procuraram o MP-RO. O órgão confirmou ao UOL que acolheu todas elas no Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit), em Porto Velho. O primeiro inquérito da Polícia Civil, com oito vítimas, serviu de base para a denúncia. Uma segunda investigação apura os relatos das outras quatro mulheres.



Vidal está preso desde 14 de setembro. A juíza Keila Alessandra Roeder Rocha de Almeida decretou a prisão preventiva para proteger a ordem pública e o andamento do processo. Dois dias depois, a defesa dele solicitou que ele respondesse o processo em liberdade ou que fossem aplicadas medidas cautelares, mas a magistrada indeferiu os pedidos.

Os relatos contra o pastor se estendem por um período de mais de 30 anos. Segundo denúncias, há relatos datados em 1994 contra Vidal. No entanto, eessas já prescreveram. Ainda assim, a Justiça as levou em conta para mostrar um padrão de conduta do pastor.

Vidal usava a dupla autoridade para cometer os crimes, segundo a acusação. Ele escolhia mulheres em momentos de fragilidade, como luto na família ou crise no casamento, e agia tanto no consultório quanto nos bastidores da Igreja Presbiteriana Gileade, onde pregava em Porto Velho.

As denúncias

Miriam Rios foi a primeira a denunciar o pastor. Em relato ao UOL, ela conta que frequentava a igreja onde Vidal pregava. Quando se viu diante de uma crise no casamento, resolveu, junto com o marido Marcel Rios, fazer terapia de casal com o pastor, que dividiu o atendimento em sessões individuais e em dupla. "Eu o via como pai, amigo, mentor, pastor, psicólogo e conselheiro. Jamais poderia imaginar que aquela confiança seria usada contra mim."

O abuso ocorreu em uma das sessões individuais. Entre o fim de 2024 e janeiro de 2025, no consultório do bairro Liberdade, o pastor propôs um exercício de "conexão emocional", em uma espécie de sessão de hipnose, para se aproximar de Miriam e forçar contato físico, ela relata.

"Naquela sessão aconteceram outras situações que ultrapassaram profundamente os limites profissionais, pastorais e pessoais, mas não quero expor esses detalhes. Ainda sinto vergonha e dor ao recordar o que vivi naquele ambiente."

— Miriam Rios, em relato ao UOL

O casal levou o caso à igreja em 28 de abril. A queixa formal foi apresentada ao Presbitério de Porto Velho, da Igreja Presbiteriana do Brasil, para apurar a conduta do pastor. "Eu ainda acreditava que seria ouvida, acolhida e tratada com dignidade. Mal sabia que, naquele momento, começava a batalha mais injusta da minha vida."

O pastor falou do caso durante um culto. Em 14 de junho, Vidal atribuiu as acusações ao "inimigo" e a uma tentativa de "rachar a igreja", o que, para Miriam, a expôs diante da comunidade. "Depois disso, senti que o ódio contra mim aumentou ainda mais", afirma ela.

Sem resposta da igreja, Miriam procurou o MP-RO em 23 de junho. Ela prestou depoimento por quase três horas na Sala Lilás do Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit). À medida que o caso se espalhou entre frequentadoras da igreja e pacientes do consultório, outras denunciantes procuraram as autoridades.

Julgamento na Igreja

O tribunal da igreja julgou o caso de Miriam em 20 de agosto, quando ela já havia levado o caso ao MP. Na sentença do tribunal eclesiástico, à qual o UOL teve acesso com exclusividade, os juízes rejeitaram todas as alegações da vítima, exceto uma fala imprópria sobre a aparência dela, que Vidal reconheceu como uma brincadeira. Ele reconheceu que a fala foi inadequada e pediu perdão.

Por 6 votos a 4, os juízes acompanharam o relator. Apesar de ter derrubado a maioria das acusações por falta de provas, o colegiado ainda optou por afastar o pastor do ministério por tempo indeterminado.

Ela descreve a audiência como um dos piores dias da vida dela. "Diante de vários pastores, o advogado do acusado fez perguntas cruéis que, na minha percepção, buscavam me desestabilizar e desacreditar. Conversas íntimas mantidas em um contexto que eu acreditava ser terapêutico foram expostas. Em vez de o comportamento denunciado ser colocado no centro do julgamento, fui eu quem passou a ser julgada."

'De vítima, fui transformada em vilã'

Membros da igreja passaram a atacar Miriam. Segundo a advogada, homens e mulheres da comunidade chamaram a denúncia de "obra do inimigo".

"Para explicar minha denúncia, passaram a dizer que eu era bipolar, instável, depressiva e mal-amada. Disseram que eu havia me apaixonado por ele, que tinha confundido as coisas e que queria meus 'cinco minutos de fama' por ele ter sido candidato ao Senado. Chegaram ao extremo de espalhar que eu era garota de programa, que meu marido me negociava com outros homens e que eu tinha amantes. De vítima, fui transformada em prostituta e vilã."

— Miriam Rios, em relato ao UOL

Miriam também registrou boletins de ocorrência contra pessoas da igreja. Ela relata ter sido ameaçada de agressão. "Uma mulher chegou a dizer que mandaria alguém me dar uma surra para que eu aprendesse a não 'mexer com o marido dos outros'."

Quem a apoiava também foi afastado. Miriam conta, ao UOL, que outro pastor da mesma igreja, cujo nome ela não quis divulgar, passou a tentar desencorajar membros da comunidade a manterem contato com ela. "Pessoas eram desencorajadas a conversar comigo, encontrar-se comigo ou publicar uma fotografia ao meu lado".

Denúncia arquivada em 2009

Outra mulher que denunciou o pastor foi Heidy Noronha Moreira Herrera. Frequentadora da Igreja Presbiteriana Gileade por mais de 20 anos, ela relatou à igreja e ao MP-RO ter sofrido assédio e abusos sexuais de Vidal desde seus 20 anos.

Os abusos começaram em 2009, de acordo com o relato. O pastor dava abraços demorados e telefonava e mandava mensagens tarde da noite, dizendo que a esposa já estava dormindo. Depois, passou a beijá-la à força na boca ao fim dos cultos. Em outro episódio, o pastor afirmou que, se a esposa dele morresse naquele dia, se casaria com Heidy imediatamente.

Ainda em 2009, Heidy entregou uma carta-denúncia ao conselho da igreja. No entanto, foi Vidal quem presidiu a reunião para analisar a denúncia. O conselho, formado apenas por homens, concluiu que não havia testemunhas suficientes, e que Heidy tinha "confundido os sentimentos de carinho paternal". O pastor não foi punido na época, afirma a advogada.

Heidy nunca recebeu a ata daquela reunião. Segundo a advogada, ela pediu o documento várias vezes. Quando a ata apareceu no inquérito policial, ficou constatado que Heidy não a assinou, e ela nega ter feito qualquer acordo.

Nova tentativa de coação

Em janeiro de 2026, o pastor chamou Heidy para uma reunião. O encontro aconteceu às vésperas do casamento dela. Na reunião, Vidal disse que ela tinha "se enganado" no passado.

O pastor pressionou Heidy a aceitar uma punição da igreja. Ele a convenceu a se submeter a uma disciplina espiritual, ligada ao casamento dela para, segundo ele, garantir que ela iria "casar certinho".

Heidy procurou o MP-RO em 24 de junho. Ela voltou a cobrar a igreja, protocolou uma nova queixa em 22 de julho e pediu cópia dos documentos de 2009, mas sem resposta. No início de agosto, a advogada dela notificou o conselho da Igreja Gileade formalmente, mas também não obteve retorno.

Outro pastor leu a ata de 2009 em público. Em 30 de agosto, durante a Escola Bíblica Dominical e diante de vários fiéis, o homem revelou que Heidy estava sob disciplina e leu trechos do documento que ela nunca recebeu.

No dia seguinte, Heidy rompeu com a igreja. Ela pediu que o Presbitério de Porto Velho assumisse o caso e denunciou o conselho local por omissão, por ter negado os documentos e por tê-la exposto em público. Ela também foi ao púlpito da igreja, tremendo e muito abalada, para expor novamente o caso e sua indignação.

"O que nos aconteceu foi crime, foi doloroso, foi vergonhoso. E eu não quero que nenhuma mulher passe por isso nessa igreja. Vocês entendem agora o poder do silêncio? Vocês mesmos não acreditam e nos julgam pela demora em expor. E quando esse dia finalmente chega, vocês nos julgam de novo. Vocês colocam a culpa em nós, as vítimas, nos fazem reviver a dor várias e várias vezes. Saio da igreja machucada, ferida e frustrada. Não com Cristo, porque esse jamais me desamparou, mas com os homens e mulheres que se acomodaram diante de pedidos de socorro de várias mulheres ao longo desses anos".

— Heidy Noronha Moreira Herrera, em discurso

Quem é Aluízio Vidal Flor

Vidal tem 58 anos e é formado em psicologia há cerca de 30. Ex-professor universitário, ele atendia em consultório e era pastor e membro do conselho da Igreja Presbiteriana Gileade, em Porto Velho.

Ele tentou por anos uma carreira política. Em 2006, disputou uma vaga de deputado estadual. Depois, concorreu à Prefeitura de Porto Velho uma vez e ao Senado em três eleições.

O que dizem os envolvidos e as autoridades

A igreja diz que não tem informações sobre o caso. Em comunicado nas redes sociais, o Conselho da Igreja Presbiteriana do Brasil Gileade afirmou que soube da prisão do pastor e que o processo corre em sigilo. O conselho disse que "reafirma seu compromisso com a verdade, com a justiça e com o devido processo legal" e que está em oração pelas pessoas envolvidas e suas famílias.

Conselho dos Ministros Evangélicos de Porto Velho (COMEP) se manifestou a favor das investigações. Em nota divulgada nas redes sociais, o COMEP afirmou que "não compactua, tolera ou relativiza qualquer forma de abuso, assédio, violência ou prática de natureza sexual que viole a dignidade humana, independentemente de quem seja o acusado ou da posição religiosa, ministerial ou social que ocupe".

O MP-RO não deu detalhes por causa do sigilo. O órgão apenas confirmou ao UOL as 12 denunciantes e as duas investigações.

O UOL procurou o CRP-24. Reportagem não obteve retorno sobre eventuais punições contra Vidal em sua atividade como psicólogo. A advogada, no entanto, informou que o MP-RO enviou o caso ao conselho de psicologia para abertura de processo ético e cassação do registro.

O UOL procurou a defesa de Vidal. Reportagem tentou contato, por email e telefone, com a CMC Advogados, mas não teve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

Como denunciar violência sexual

Vítimas de violência sexual não precisam registrar boletim de ocorrência para receber atendimento médico e psicológico no sistema público de saúde, mas o exame de corpo de delito só pode ser realizado com o boletim de ocorrência em mãos. O exame pode apontar provas que auxiliem na acusação durante um processo judicial, e podem ser feitos a qualquer tempo depois do crime. Mas por se tratar de provas que podem desaparecer, caso seja feito, recomenda-se que seja o mais próximo possível da data do crime.

Em casos flagrantes de violência sexual, o 190, da Polícia Militar, é o melhor número para ligar e denunciar a agressão. Policiais militares em patrulhamento também podem ser acionados. O Ligue 180 também recebe denúncias, mas não casos em flagrante, de violência doméstica, além de orientar e encaminhar o melhor serviço de acolhimento na cidade da vítima. O serviço também pode ser acionado pelo WhatsApp (61) 99656-5008.

Legalmente, vítimas de estupro podem buscar qualquer hospital com atendimento de ginecologia e obstetrícia para tomar medicação de prevenção de infecção sexualmente transmissível, ter atendimento psicológico e fazer interrupção da gestação legalmente. Na prática, nem todos os hospitais fazem o atendimento. Para aborto, confira neste site as unidades que realmente auxiliam as vítimas de estupro.

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