Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição é caracterizada pela dificuldade persistente de controlar as apostas, mesmo quando o comportamento provoca prejuízos financeiros, familiares, profissionais e sociais. Com a expansão das chamadas bets, especialistas e autoridades de saúde passaram a tratar o problema também como uma questão de saúde pública.
O transtorno não se resume ao desejo de ganhar dinheiro. O mecanismo envolve o sistema de recompensa do cérebro, que é ativado durante o jogo. A expectativa de uma possível vitória pode provocar liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado à motivação e à sensação de recompensa.
Esse processo ajuda a explicar por que o comportamento pode se tornar repetitivo. A pessoa não precisa necessariamente ganhar para continuar apostando. Situações em que fica próxima de uma vitória também podem estimular o sistema de recompensa e alimentar a expectativa de que o próximo resultado será favorável.
Com a repetição das apostas, o controle sobre o comportamento pode diminuir. Alterações relacionadas às áreas cerebrais responsáveis pelo planejamento, avaliação de riscos e controle dos impulsos podem dificultar a interrupção do jogo, inclusive quando o apostador já enfrenta perdas financeiras significativas.
Quando o hábito se transforma em transtorno
O diagnóstico leva em consideração a persistência do comportamento e os prejuízos provocados pelo jogo. Entre os sinais de alerta está a necessidade de aumentar progressivamente o valor das apostas para obter a mesma sensação de excitação.
O diagnóstico leva em consideração a persistência do comportamento e os prejuízos provocados pelo jogo. Entre os sinais de alerta está a necessidade de aumentar progressivamente o valor das apostas para obter a mesma sensação de excitação.
Outro indicativo é a irritação ou inquietação quando a pessoa tenta reduzir ou interromper o comportamento. A preocupação constante com apostas também pode ocupar grande parte do cotidiano, incluindo a busca por dinheiro para continuar jogando.
Um dos comportamentos mais característicos é a tentativa de recuperar valores perdidos por meio de novas apostas. Conhecida como “perseguir o prejuízo”, a prática pode aprofundar rapidamente as perdas e criar um ciclo difícil de interromper.
A ocultação do problema também é frequente. O apostador pode mentir para familiares ou pessoas próximas sobre quanto está jogando ou sobre o tamanho das perdas. Conforme o transtorno avança, outras áreas da vida podem ser afetadas, como trabalho, estudos, relacionamentos e convivência social.
Apostas pelo celular ampliam exposição
Diferentemente do jogo tradicional, que depende da presença física em um estabelecimento, as plataformas digitais estão disponíveis permanentemente. Basta um celular conectado à internet para realizar uma nova aposta.
Essa facilidade reduz barreiras que anteriormente dificultavam o acesso ao jogo e pode favorecer a repetição do comportamento. O apostador pode passar rapidamente de uma aposta para outra, sem precisar interromper sua rotina ou se deslocar.
Os efeitos não se limitam às perdas financeiras. A ludopatia pode estar associada a outros transtornos psiquiátricos, entre eles depressão e ansiedade, além de problemas relacionados ao sono. Em situações mais graves, especialistas alertam para a possibilidade de ideação suicida.
O endividamento também pode atingir toda a família. Salários, economias e recursos destinados a despesas básicas podem ser direcionados às apostas na tentativa de recuperar perdas ou obter um ganho rápido. O resultado pode ser a deterioração da situação financeira e dos relacionamentos familiares.
Problema também chega ao ambiente de trabalho
O avanço das apostas online levou o transtorno para além do ambiente doméstico. Funcionários podem realizar apostas durante o expediente, comprometer sua concentração e produtividade ou enfrentar dificuldades financeiras e psicológicas decorrentes do jogo.
A questão também passou a ser discutida nas relações trabalhistas. Quando o comportamento é reconhecido como manifestação de uma doença, a situação pode exigir tratamento e acompanhamento médico, em vez de uma resposta exclusivamente disciplinar.
A avaliação de cada caso, porém, depende das circunstâncias concretas e das normas aplicáveis à relação de trabalho.
Tratamento exige acompanhamento
Interromper o comportamento compulsivo pode exigir mais do que uma decisão individual de parar de apostar. O tratamento costuma envolver acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das abordagens utilizadas para tratar o transtorno. O objetivo é identificar pensamentos e comportamentos associados ao jogo e desenvolver estratégias para lidar com situações que desencadeiam a vontade de apostar.
O acompanhamento psiquiátrico pode ser necessário especialmente quando existem outros transtornos associados. Medicamentos podem ser utilizados conforme a avaliação médica, principalmente no tratamento de condições como depressão e ansiedade ou de dificuldades relacionadas ao controle dos impulsos.
Grupos de apoio também podem fazer parte do processo de recuperação. Os Jogadores Anônimos mantêm grupos voltados a pessoas que desejam interromper o comportamento de apostar e oferecem espaços de compartilhamento de experiências.
O controle financeiro é outro componente importante. Em determinadas situações, familiares ou pessoas de confiança podem ajudar a limitar o acesso ao dinheiro e acompanhar as despesas durante o período inicial de tratamento.
A identificação precoce dos sinais de perda de controle pode reduzir os prejuízos e facilitar a busca por ajuda. Quando as apostas deixam de ser uma atividade eventual e passam a interferir nas finanças, nos relacionamentos, no trabalho ou na saúde mental, o comportamento merece avaliação profissional.